Pular para o conteúdo principal

Postagens

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  
Postagens recentes

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Trópico de Capricórnio

Você não conhece a palavra saudade. Não conhece o sentimento calado que jorra por entre as veias de quem lhe escreve essas linhas. A língua do beijo nem sempre se comunica da maneira correta. Agora me vejo aqui pensando nas noites que passamos juntos por entre as ruas de pedra sabão conversando em um inglês carregado. O seu carregado de alto e baixo alemão e flexões radicais. O meu carregado de um sim, eu digo sim, eu quero sim para qualquer coisa que você sugeria, como se minha obrigação fosse mostrar todos os arredores e contar todas as histórias de um lugar nunca visto, como aquele que inventa uma informação para não dizer que não sabe.  Mas agora eu sei. Depois de todos esses anos eu sei. Sei que o bilhete escrito a lápis e dobrado cuidadosamente na minha cama era o prenúncio do fim de um amor que ainda não começara. Ainda não sei o livro que não consegui identificar o título que você lia pacientemente enquanto carregava consigo o gesto polido e os olhos calmos de quem sabe mai...

A luta corporal

E ela passa... Há todo um frisson, um lamento, um grito seco que preenche o espaço por alguns segundos. uma bola passou a quatro centímetros da trave esquerda de um jogo de futebol. No outro dia,  estarão discutindo aquele lance em diversos ângulos e sempre sisudos, com expressão grave, como se tudo naquele intervalo do dia assumisse a irresponsabilidade de um gol perdido. Como se gosta de criar emoções e sempre à procura de sua própria briga de galos. E depois registrar. Sempre registrar e inventar uma nova possibilidade de descoberta efêmera.  Sempre à procura de criar emoções em suas diversas formas. É assim também com as artes como tudo, sempre uma insensatez, uma exortação, uma briga de galos. E existem tantas. É sempre no passado aquele orgasmo. Os dias passam passam. Há muito que se fazer daqui e dali, mas tudo seguem num ritmo como se nada passou, como se as horas tivessem sido usurpadas. A vida é longa mas o tempo míngua. Penso no livro de Carolina e no presente aquel...

O signo do teu estudo

 O círculo começou a orar. Eu sentava a esquerda, como se o outro lado daquele cômodo estreito pudesse me impedir de chegar à porta. As vozes não eram muitas, mas faziam crescer a vibração com o coro potente e ritmado. Há meses vislumbrava o momento. Estava ali. Havia uma segurança desde o início, ainda que se cobrava uma reflexão maior e de uma natureza distinta da apresentada anteriormente. É doce. E me disseram que era amargo. Voltamos para as orações cantadas e a chuva caía caía. Os toques de instrumentos estrangeiros guiavam a cerimônia, enquanto a ansiedade do não acontecer atrapalhou o foco, que passou desapercebido por todos. Sim, dai-me. E quando recebi e voltei para o centro, senti um riso brotando entre os lábios enquanto eu procurava estar sério. Um fio de tensão percorreu a espinha. Aceite o que você pediu. E vi as letras voarem para fora da folha que restou branca. E conversei com um sábio com voz mansa.  Tente olhar para frente e se guiar pela respiração. Houve ...

Objetivos

 O loop da montanha russa que nos leva a certeza da estagnação e quando se vê, pluft, é possível andar em um carro pilotado por inteligência artificial, apesar da miséria cada vez mais espetar os corpos de milhões. Coloca-se a cana no moedor de cinco roldanas e ainda se espera a não-violência, a sobriedade e que ainda seja doce.  As experiências são menos individuais do que se pode pensar. É coletivo. A ética, o amor e a ciência não podem florescer de maneira adequada enquanto o pensamento básico é sobreviver. Todos os dias há uma afronta a sanidade mental de cada indivíduo, mas não de forma individual.  Há problemas objetivos que merecem ações objetivas. As ações diversas de completos antagônicos carregam a mesma frustração, de não ser aquilo que se pensava. O destino é o mesmo, que se num primeiro momento conforta, no seguinte desperta a aceleração dos cálculos mentais pela solução parecer não existir. Há vendedores de ilusões, mas como se convence alguém da charlatanic...

Kush e Corinthians

 Há um ritmo para cada momento. As letras expressam essa máxima. Sua velocidade tem diminuído e aquela verve anterior se perdeu entre outros hábitos e vícios. Naquele tempo talvez se acreditasse que era possível ganhar o jogo. As respostas não estão nas linhas, estão nos círculos que dificultam a visão quando entortam a curva do passado e não há certeza se de fato aconteceu. Tudo parece vindo de outra vida. É necessário ocupar o tempo com desejos que invariavelmente lhe conduzirão à incompletude e a ansiedade de algo que já conhecemos.  A biografia de Prestes e o romance de Zola distraem. As cartas fazem a cada dia alguém sorrir mesmo que apanhando em todas as suas circunstâncias, mas há algo ali: jogando correto a derrota pode vir, mas com piores jogadas sempre se abre aquele espaço no fundo do poço. A mudança é permanente, mas nem sempre permissiva. Não há nada de novo por aqui. Mas há outras tantas coisas que eletrocutam o córtex, que sempre estiveram presentes, mas que no ...