A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra!
O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos.
A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu. Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que se estivessem brincando, mas não. Um dos golpes a alcança e ela por detrás do banco, a senhora com a ponta dos dedos ainda raspa o canto onde ela caiu para se certificar de que foi eliminada.
Foi presenciada a morte de uma borboleta e nada foi feito para impedir. A não interferência nos torna cúmplices.
- Licença! - como se fosse uma ordem.
E por um instante, cogitou-se que a senhora também estava cansada. Não que quisesse morrer, mas os joelhos doíam, o rosto perdera o brilho de outrora, os gestos tão simples eram manifestados através de uma guerra.
Desceu os degraus e quando pisou no asfalto a borboleta saiu por entre a lã do casaco fino dando ainda piruetas e depois se perdeu no trânsito intermitente de aspirações.
Borboletas tem endereço? Chegamos na Prudente.
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