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Isso não é sobre o amor

 James Joyce foi alguém que fez uma das maiores provas de carinho e eternizou seu amor por Nora Barnacle de uma maneira sublime. Isso tudo fica cada vez mais claro a medida de novas leituras de Ulisses, de Joyce e, sem dúvida a Odisseia, de Homero. Joyce viu pela primeira vez Nora em uma tarde de 16 de junho de 1904 e seu revolucionário livro, Ulisses, narra uma história que se passa em, se eu não me engano, dezoito horas do dia 16 de junho de 1904. 

Tenho notado que muitos vem aqui, principalmente quando escrevo algo sobre relacionamentos e coisas do tipo. Para não lhe pegar desavisado com um título ambíguo e propositalmente chamativo,  deixo claro de antemão.

Por vezes me pego pensando: Do que eu gostaria de ser reconhecido ao falarem de mim? Seria talvez um professor, um pesquisador, um pai, um amigo, entendo que todas essas opções podem ser consideradas a depender da situação, mas a dúvida era a reflexão a partir de um modo duradouro, entende, como se fosse a sua própria apresentação ou legado na vida. Entendo os problemas da palavra "legado", mas não estou apto nem a discutir o termo, nem encontrar um vocábulo mais apropriado. 

Enfim, trafegando pelas estradas do pensamento e com tempo livre para deixá-los vaguear, estive comigo e vi que gosto genuinamente de muitas coisa. Gosto de ser criativo, mas principalmente na ideia de fazer algo totalmente diferente, no entanto, ao mesmo tempo que adoro a ideia de seguir o fio de uma ideia ou projeto já discutido. De tudo isso, lembro que gostaria de ser reconhecido como um artista, um escritor que não precisa ser reconhecido com altas honras e premiações, mas ao mesmo tempo que chegasse lá. Onde é lá? Falando sem pensar muito, seria a publicação de livros e uma certa progressão no reconhecimento e na técnica, onde eu pudesse viver disso e ao mesmo tempo que me exercitar em outras atividades. Mas, gosto do ato de escrever, de formar pensamentos e criptografá-los em seguida em ordens divertidas. Escrevi meu primeiro livro e há um tempo não pego para fazer, aí sim, a edição definitiva final finalíssima. Percebi ao mandar para um concursos que havia dois terços de página duplicados, gosto de me confortar dizendo pra mim mesmo que fui cortado por esse erro e que minha história pudesse dar em alguma coisa.

A questão é, fiquei satisfeito com meu trabalho, sendo minha primeira tentativa que conseguiu, por vezes à duras penas, virar uma história e um livro. Entretanto, tudo o que costuma me agradar e  reflito sobre ser minha personalidade na escrita foge desse meu livro: Movimentos lentos, história simples, desfecho aberto. Talvez, esse último quesito pode alcançar uma razão de ser ainda nesse livro, mas me frustro porque ao lembrar de Ulisses, acho genial uma história que se passa em um dia de Dublin na vida de um homem aparentemente comum e que apesar de acontecer muita coisa, nada de espalhafatoso acontece. Genuinamente acho genial. Agora, outro dia anotei os pensamentos de uma ideia de história.

Um jovem desempregado que mora em uma metrópole viaja para o interior para procurar uma jornalista desaparecida e ao chegar na cidade descobre que há um elevado caso de abortos involuntários e na investigação individual se alia aos camponeses contra um grupo de pecuaristas em uma guerrilha local e no meio tempo acaba se apaixonando por uma esposa dos chefe do pecuaristas. No fim, todos morrem, ela pela morte do marido ele, que sem saber manejar armas vai pra linha de frente. A jornalista continua desaparecida.

Eu- escritor acha que uma história tem que ter muitos pontos de enlace. 

Eu-leitor acha isso uma hipérbole sem-graça.

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