Pular para o conteúdo principal

Infância

 Quando o sol raiou por entre as nuvens ainda cinzas da noite, eu havia me tornado mãe. Eu tinha ainda onze anos e meio quando vieram puxar minha coberta fina e me dizer que minha mãe falecera. Ela estava na casa de nossa vizinha Lourdes desde o dia anterior e mesmo sem que ela me explicasse o motivo de não estar ali e me deixando sozinha com meus outros dois irmãos menores, eu aprendi a adivinhar. Sempre que ela ganhara uma barriga inchada e depois taciturna, ia pedindo água fresca para molhar seu rosto suando em bica. Depois, sem avisar nem nada, andava os poucos metros que separava nossa casa da casa de Dona Lourdes, onde seu Antônio marido de Dona Lourdes e parteiro ocasional, retirava ao mundo sem gaze ou fórceps esterilizado uma massa envolta em sangue, que vinha a nossa casa enrolada em uma toalha branca e atiçava a nossa curiosidade.

Quando mamãe morrera, vieram os dois vizinhos, mas Dona Lourdes não conseguiu entrar na casa. Ficou pisando na terra seca e ouvia-se um choro seco que não se convertia em lágrimas. O homem que viera carregando a toalha nos braços, a deixou em cima da cama de palha e colocou as duas mãos sobre meus ombros.

- A gente tá ajeitando de você morar com seu tio Geninho que tem terra e vai tratar d'ocêis. 

Eu fiquei estática. Meu pai não ficava em casa e agora talvez nunca voltasse. Estava sempre bêbado pelas vendas que encontrava na estrada.

Fui separada de dois de meus irmãos que ficaram com Dona Lourdes e Seu Antônio. Fui morar com o tal do tio Geninho do qual nunca ouvira falar. Mamãe foi enterrada aos pés do mamoeiro no quintal de nossa casa.

Levei o meu irmão no colo e não falei pra ninguém, mas coloquei o nome dele de Luiz. Na nova casa, me receberam com frieza e a patroa me tratou de colocar para trabalhar na casa, limpando, fazendo comida, ajudando a descascar o milho, dando banho nas crianças...

Enquanto isso meu irmão passava o dia todo em uma bacia de cobre enferrujado com um pouco de água, sendo alimentado por um pouco de leite de vaca com água. Em alguns dias ele foi sumindo, sumindo dentro da água e eu não conseguia mais vê-lo. Tinha sempre um serviço de casa para eu fazer e a patroa parecia não gostar da criança, mas mesmo assim eu o levava para dormir comigo toda noite.

 Acordei com mau pressentimento e toquei com a ponta dos dedos sua pequena cabeça. Ele estava quente, mas pude sentir seu pequeno coração batendo agitado. Ele estava vivo e respirei aliviada. Nesse dia fui buscar mais milho para descascar, mas quando voltei pela tarde, o meu tio me abraçou pela primeira vez, mas eu queria era me aproximar da bacia para ver meu irmão. Quando cheguei lá ele já não estava ali. Perguntei aos berros correndo pela casa e as crianças gritaram sem nenhum pudor:

- A boneca morreu! A boneca morreu!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...