Pular para o conteúdo principal

Colinas como elefantes brancos

E se a capacidade intelectual de todos fossem definidos em ordem alfabética de A a Z. Todos passariam pelo estágio inicial do A, como se tarefas de engatinhar e as primeiras sílabas ditas em um língua se desenrolasse como estágio inicial?  A partir de qual letra estaria os adultos em média? Os velhos que quando adultos só tiveram alcançado, digamos o estágio J - que por si só representa um bom índice - voltaria exponencialmente aos estágios anteriores, estancava ou era possível alcançar o K, e quem sabe, o L?

O avanço heurístico impediria que alguns indivíduos, os ditos da segunda parte do alfabeto - a partir do N para fins de marcação - seriam isentos de lidar com problemas de ordem cotidiana, que te levam a avaliar se leva um quilo de carne de vaca ou dois quilos de frango enquanto finge olhar com atenção para a cara do atendente do caixa e acaba pensando que deveria ser vegano, ou simplesmente esquecer que se está comendo um animal mas se percebe em casa e sem os pães que ficou de levar.

Há uma pose formada e uma intenção genuína de entender os dilemas da metafísica e de aceitar que se deve levar sempre a pedra pra cima do morro para vê-la rodar até embaixo e assim todos os dias. É um dever e um gozo. 

Chegar no estado Y deve ser uma experiência de iluminação extraordinária, mas no outro dia se está comendo recheadinho de Goiaba enquanto assiste na aba anônima as melhores pegadinhas do Sílvio Santos. E em nenhuma das duas coisas há um prazer maior que o sexual, mas que se dilui em instantes. 

Pode-se acusar essa concepção de um busca de sentido que é em si sem sentido algum, mas como não pensar, se a busca das questões altas e nobres e lúcidas, sim verdadeiramente altas, nobres e lúcidas é essencialmente uma busca de inventar um sentido para algo sem sentido, de pensar: O discurso que é influenciado pela realidade ou vice-versa?

Se o mundo estivesse pronto seria preciso desmontá-lo, para depois refazê-lo aos pouquinhos na luta de Sísifo infinita contra o tédio, a força da busca dos intelectuais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...