E se a facada tivesse acertado em cheio? Perfurado a garganta e espirrado sangue em meio ao verde e amarelo da multidão? E se o policial militar tivesse fingindo que não viu o suspeito com a faca na mão e desse um tiro para o alto para espantar a multidão? E se o cirurgião manejasse o bisturi com cuidado para acabar de abrir a carótida e alegasse erro médico, pediria três semanas de folga e ia com a família para o caribe? E se a imprensa negasse cobertura, fingisse que estava ocupada desvendando os estacionamentos preferidos por artistas que já não tocam mais nas rádios?
E se o coveiro arrancasse a terra com a mesma indiferença de toda a manhã? E se o céu o repudiasse e o inferno o ignorasse? E se o dono da banca continuasse a vender mais um chip em promoção, o delegado bebesse mais uma dose de uísque já que saiu mais cedo do serviço, o filho continuasse a tomar sorvete antes do jantar? E se o patrão a cobrar mais do empregado e o outro fingisse que trabalhava e bastasse virar as costas, puff, o ritmo parasse as máquinas? Há tanta gente boa no mundo morrendo de câncer, de derrame, de infarto, de descaso pela saúde pública enquanto muitos babam que imposto é roubo, se acontecer uma coisa pegam um avião pra Orlando e vão limpar privada, "but, it's american shit, yes, sir?"
E se todo mundo que clama ser cristão, se parecesse com Cristo e não com os crucificadores que torturam, matam e bebem o sangue do preto, pobre, favelado que são tantos que não cabem no jornal. E se a bomba atômica explodisse e voasse pescoços de todos e sangue jorrasse sobre a terra seca, que asco os estadunidenses teriam ao ver seu sangue escoando para o mesmo buraco que os bolivianos, os iranianos e os chineses. E se o mundo acabasse, seria tão ruim assim?
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