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Retrato do intelectual quando velho #56

Giz, lousa e mais um dicionário de conceitos. "Professor, professor, posso enviar o trabalho por e-mail?" Carlos passava os dedos engordurados para limpar algo nos lábios. Encurtara os cabelos e aumentara o quadril das calças. Uma pilha de livros, outra de provas mal-escritas pelo aluno 11 da chamada. Um jovem sorridente abraça a esposa na foto ao lado do monitor. Em qual tese esquecera aquele sorriso? Ou será que aquilo se perdera na utopia que não veio?
"Vamos tomar uma cafézinho, Carlos?", "Adoraria Maria, mas estou tentando parar de fumar, sabe como é?" Bebeu um pouco do chá morno e pensou: "Como o homem é revoltado com sua condição e luta para ser algo a mais tal qual não sabe bem o que. Qual o sentido?"
Alguns vestem ternos e gritam à procura de Deus. Carlos, não os julga, não mais. Também já achou que o futuro já estava definido e separado em livros divididos em línguas estranhas, a diferença é que era dividido só em capítulos não em versículos. Devia era ter seguido a poesia, pois se fala o que quer e não se preocupa nem se aquilo rima, o que dirá se resolve.
Carlos arfa o peito busca o ar quente que não vem, está cansado. Mais uma palestra desconhecida com o mesmo assunto para outros estudantes que tem em comum, o olhar fixo na tela e as conversas paralelas. Pretendeu compreender a fagulha da origem do mundo e da desigualdade social e não sabe responder quando Juliana não quer lhe dar um beijo pela manhã. "Você sabe o que fez", ela diz. 
Como é que saberia aquilo que finge saber por trás da bolsa marrom e dos óculos dourados? "Sou um enganador" ele cuspiu com a saliva suja de um pensamento impuro. No leito da morte e só no leito da morte, Carlos se tornará lúcido e exortará a sua capacidade de feto de compreender o mundo,  mas em tom baixo e em vocabulário preciso, só porque é sabido.

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