2880 horas. Parece muito mas de perto é pouco tempo. E depois, o que vai acontecer? Perderei cidadania e andarei como refugiado atrás de algum lugar pra chamar de pátria. Não quero pensar em minutos. 172800. Só um minuto numa aula desinteressante ali, outros mais tantos na conversa no almoço do R.U. comendo bobagens, falando besteiras. Depois o outro dia passa e a noite ajuda a esquecer. Lembra quando a gente era jovem e invencível? A gente falava, ria, bebia, fumava, beijava, fingia, às vezes estudava mesmo, jogava, lia, dormia, ria mais um tanto, como a gente era bobo! De vez em quando a gente transava, mentia, viajava, se abraçava, emocionava, prometia que nada acabaria, que ia fazer uma tatuagem ou cheirar uma carreira na bunda de uma prostituta como naquele filme da TV. 10368000. Todos esses segundos pra dizer que a vida continua. Dizem que vou conhecer mais gente, encontrar um amor e talvez viajar pelo mundo. Que a vida é seguir em frente, e o que ficou para trás, não vale a pena ver no retrovisor. Sentir falta. Haverão outras coisas, outras pessoas, outros sentimentos, mas nunca os mesmos. Os bancos do V vão ficar lá, mas nunca vou mais voltar para ocupá-lo às 18h para ler ou espiar os outros antes da aula. Os amigos vão lembrar por um tempo das histórias, mas depois de um tempo eles também vão embora com suas histórias e haverão outros chegando no tempo cíclico, ocupando meu lugar do lado direito da sala e a casa da Dona Maria. A bomba vai explodir e agora só faltam 10367516 segundos.
Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava. Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar. Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar. Mas quero nadar. Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua. Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.
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