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Lotocracia #51

O sol batia às 14 horas e não sei quais minutos, saí de casa sem olhar pro relógio. Fui tranquilo pagar a conta, de férias, tenho todo o tempo do mundo, pensava. Até ver a fila que cruzava o passeio e entrava dentro de um manequim com chapéu de aba torta e cachecol. "Mas vamos lá, passa rápido". Lá dentro havia um enxame de formigas com roupas e pensei em como encontrar a fila, se há tanta gente. De vez em quando saia um, entrava dois ou três velhos e o fogo à acertar os miolos. 
Só mais uma passo e, pimba! Agora eu estava lá dentro. Cada minuto um centímetro, o relógio marcava três horas e agora eu fazia parte do bolo de gente babando por um caixa livre. "Não, não vou desesperar. Já já chega a minha vez". Um ventilador girava lento no teto e o ar condicionado desligado, no meio da fila havia alguns velhos com papéis de tantos jogos que não cabiam no bolso, "Pra que aquele velho de bengala que não dá dois passos firmes, quer tantos milhões desse jeito?" Me reprimi. Não podia pensar assim, o mundo era livre pros velhos ou qualquer um enriquecer. O ar ia sumindo. "Tá cheio, né?", " Nossa, paga essa conta pra mim, tô com meu bebê esperando sozinho no carro". O que eu mesmo tava fazendo ali?
A testa começou a molhar e o ar quente, que parecia vir do ventilador no teto. 15 h 20. "Por quê existe relógio aqui, isso só deixa as pessoas mais irritados pelo tempo perdido". Um garoto de óculos de fundo de garrafa e uma bacia nas mãos acabou com o zumzum: "Olha o bombom, olha bombom, vai um bombonzinho aí, senhora?". Um bombom, com o brigadeiro raspando a garganta o açúcar do chocolate em pó que não foi dissolvido no preparo. Que sede! Bem que podia aparecer alguém vendendo água. Água. Ah, era isso. Eu tava ali pra pagar a conta de água. Quanto tempo a gente consegue ficar sem beber água?
"Opa, você que é o filho do.." "Sou eu mesmo" "Então eu queria saber o orçamento de uma janela fumê de 2 x 1,5". "Isso é só com meu pai mesmo, eu não sei a diferença do prego pro parafuso". Malcriado! Os braços coçavam, pela testa escorria um filete grosso de água e sal. 
Poucos metros me separavam da fita azul da atendente de óculos de lentes fotocromáticas . A cabeça girava, só mais três na frente. Um casal jovem se abraça timidamente, a menina acena pra frente para o menino afastar, provavelmente algum conhecido que prestava atenção para contar com detalhes pra mãe dela. 
Próximo! Coloquei a conta por entre o vidro e o dinheiro, sorri para o lado. Onde estava o homem que queria comprar a janela? "Senhor, essa conta está vencida e não vou poder estar recebendo o pagamento, você vai ter que ir direto à alguma agência da companhia de água". Não, não podia ser. O senhor que estava atrás de mim, colocou a língua pra fora e um maço de papel na mão. "Vai jogar na mega hoje, seu Aloízio? "Não, a mega sena o governo faz pra pegar dinheiro dos outros, hoje é só duas na  quina e três na dupla sena". 

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