Pular para o conteúdo principal

Impotência é foda! #53

Impotência. 1. falta de poder, força ou meios para realizar algo; impossibilidade. 2. incapacidade, esp. masculina, para a cópula; falta de potência sexual. Essas são as definições encontradas num dicionário de internet. Do dia para a manhã que acordei ao contrário na cama sem saber como fui parar aí, estou assim. Não acho que seja pelo fato de eu ter dormido com a cabeça onde costumo colocar os pés, mas de uma hora para outra não consigo mais escrever. 
Parei o meu colega de quarto e disse com o desespero tremendo a voz: “Não consigo mais escrever!” Ele virou os tirou os olhos por um segundo do último prato que faltava enxaguar na pia e disse com um riso meio sem-graça: “Ué, escreve sobre bater uma bolinha na parede”. Olhei para minha mão e estava uma bolinha de massagem verde amassada. Voltei para o quarto cabisbaixo, não era assim que funcionava as coisas. 
Acendi um cigarro, apaguei sem fumar. Bebi água porque pensei que podia estar desidratado, depois bebi café porque eu podia estar cansado. Pensei em beber uma cerveja pra relaxar, mas eu tinha que ir pra aula, não ia dar certo. Abri o jornal, andei pela casa, sai para comprar pão, abri um livro, bebi mais um pouco de café, tomei banho frio, depois outro quente, apaguei a luz, fiz abdominal, flexão, plantei bananeira (mentira, isso eu não consigo fazer) arrisquei tomar um chá com amora e sal grosso, mas eu não tinha amora em casa e não achei no supermercado. Nem uma linha, nem uma ideia por mais de um minuto ficava na cabeça.  
Arrisquei ir num postinho  do SUS, aquilo já durava semanas. Estava vazio, sem ninguém. (Que plot twist, hein?) Tinha bastante gente, mas esperei paciente, aquilo tinha que acabar. Horas olhando para a televisão na tecla SAP, até que enfim me chamaram e que quase  perco a vaga pra um senhor que já foi levantado de mãos dadas com um garoto, a justificativa dele foi a melhor: “É que às vezes chamou o meu neto ao invés de mim”. Sorri para o velho e perguntei para o menino que não tirava o indicador da boca: “Também chama Gabriel?” O velho falou apressado: “Não, Marcos Paulo. Mas é que na escolinha ele tem um amigo que chama assim”.
Olhei para a cara do careca de óculos do outro lado da mesa. Ele perguntou o que eu tinha e eu já fui direto: “Tenho impotência”. O outro se assustou com a cadeira pulando pra trás.  “Mas, tão jovem”. Ele depois discorreu sobre que deveria ser coisa da minha cabeça, (alerta de piada infame)  e me deu 1/4 de um comprimido azul niágara. Resumindo, voltei pra casa e tô olhando pro teto com o coração que nem o Olodum e a calça esticada no zíper, ainda sem conseguir escrever nada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...