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Adeus, américa! #47

Fritz estava parado há alguns minutos a comparar a foto desbotada na palma da mão com a fachada a sua frente que não a ser pelo dourado no fundo negro com os mesmos dizeres de "Corcovado Club", de nada lembrava a bossa de outrora. Nas grandes telas espalhadas pelas paredes de tijolos à vista ecoava uma linda mulher morena com roupas e dançarinos no ritmo do que descobriu ser "o funk carioca". 
Ali, vinte anos atrás se realizou um espetáculo que mudaria sua vida. Como a juventude esgota as energias numa só badalada, o concerto que selaria a paixão dos trópicos daquele romance que nasceu no velho mundo, acabou por desencontrá-lo. Durante duas semanas ficaram Fritz e sua amada entre beijos salgados de Copacabana e chopes gelados na Barra. Como tudo era mais vivo no país tropical!
Até que ela esbarrou no "Ho-ba-la-lá" e ganhou dois convites para o espetáculo que ocorreria naquele café da foto, mas Fritz se perdeu no combo futevôlei + churrasco na casa daquele amigo que fez horas atrás na corrida pela orla.
Com a chave na mão e a lua a insinuar refletir a luz por detrás da noite, abriu a porta do quarto já se fingindo de mais bêbado que suas pernas ditavam, para afastar as broncas que viriam a seguir. "Fui roubado!" seus olhos disseram para as roupas remexidas e o abajur quebrado. Poucos segundos foram necessários para a adrenalina subir mais que o álcool e trazê-lo de volta a lucidez.  Estavam num bom hotel, não havia sinal de arrombamento na porta. No papel amassado que encontrou ao lado de sua carteira marrom intacta, estava a sentença: Gilberto in home. End: Prédio 1, nº32, largo da... No outro dia pagava os seus últimos reais para o motorista que o deixava no Galeão prestes a partir para casa. Nunca mais voltaria ao Rio. Nunca mais falaria sobre o Brasil.
Berlim, -5º. A cerveja perdera o frescor, o velho estúdio de fotografia no quarto dos fundos não produzia nada há meses. Nunca sentira tanto incômodo por aquele frio. Passaporte, avião, e agora de volta ao Leblon.
Há dias gastava a maior parte de sua reserva em euros em bandeiras 2  para lá e para cá atrás de João. Conversa com amigos, empresários e um dia segurou pelo braço quem diziam ser filha, ninguém sabia onde estava ele. Será que ele existia? Ou será que a verdade vinha da história de que era o irmão mais jovem de Cristo e que ao invés da cruz aos 33, preferiu se tornar um violão amarelo entulhado no sebo da casa velha? Só sabia que assim não podia voltar a Alemanha, tinha que ouvi-lo uma vez ou morreria tentando.
Ligações, passagens e muita espera em bares e cafés de todo a capital fluminense. Quem sabe João não decide dar uma volta pra espairecer e a gente se esbarra?
Como o inglês da Baker Street, fumava sempre um cigarro e seguia atrás cada centelha de pista. Até que conheceu um homem baixo e magro com um Ray-ban verde escuro e um tique de roçar os caninos no canto dos lábios. Jantaram num restaurante em Ipanema. Ligou para João ali mesmo e Fritz ouvindo o sussurro do outro lado, quase voou sobre o velho, mas se controlou e fingiu até reparar no menu de sobremesas. 
Outro dia, às 11h da manhã. Ia acontecer. Na hora marcada, o velho de Ray-Ban e seu Del Rey 74 cinza metálico veio buscá-lo e o guiou para zona sul. Parou no estacionamento de um hotel. Subiram. Será que o mestre da bossa nova passava os dias entre bife de chorizos com batata frita e programas de TV num quarto do Copacabana Palace? Iria vê-lo? Chegaram ao 114. O velho bateu  e entrou sozinho. Depois de alguns minutos ouviu-se o "Ho-ba-la-lá" e Fritz apertou ainda mais sua cabeça na porta branca. Uma lágrima correu por sua face lânguida, ela nunca iria perdoá-lo.

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