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A mulher ideal #36

Naquela hora do almoço, o restaurante ficava tão cheio que dois amigos podiam comer e falar besteira sem que ninguém se importasse. 
E então? - José Carlos insistiu.
- Não sei… não sei… - Renato pensativo olhava o amigo com rugas entre a testa e o nariz, dando a impressão que se estivesse se esforçando.
- Ah, pra mim um dia feliz teria que começar ao lado de uma mulher, linda, que eu acordasse primeiro e ficasse olhando suas coxas descobertas abaixo da camisa que lhe cobria os seios. E que eu ficasse apenas assim, comendo-a com os olhos. O gozo desmancha o desejo.
- Para de tentar ser poeta, Zé. O sexo é o que inibe às impertinências do relacionamento cotidiano. Eu, só queria que não fosse a minha mulher. Ela sempre acorda de mau-humor e se me vesse assim, ainda iria me mandar à puta que pariu. - Renato já estava na fase de descrença das relações, mas lhe faltava coragem para terminar.
- Tá bom, outra mulher. Mas, tinha que ter lábios grossos e nome de Helena ou Antonieta. 
- Lá vem você de novo com literatura. Eu queria era uma mulher revolucionária sabe, inteligente, que faz comício com operário...
Nesse momento passava uma colega de classe perto dos dois e esboçaram um comentário aleatório sobre o tempo.
- Essa Natália também, é uma gracinha hein… Você vacilou de não ter a beijado aquele dia. Ela tava afim.
Renato sorriu amarelo:
- Você não esquece e ainda não me ajuda a esquecer disso, né? Muy amigo.
- Não dá, não dá. - Os dentes já estavam à mostra. - Mas, enfim, só queria que ela dormisse comigo todas as noites.
- Você não entende nada mesmo, por isso tá sozinho. O lance é saber dosar, porque senão estraga.
- Mas, a Eduarda não dorme na sua casa toda noite?
- Ah, tu sempre desvia o foco da conversa. Essa mulher tinha que ser ter os cabelos pretos e longos, isso eu sei.
- Pra mim, ela só precisava ter franjas.
- Que goste de Caetano…
- E de Rimbaud.
- Enfim, que gostasse da gente, mas que não demonstrasse tanto e até tratasse a gente mal, algumas vezes.
- Olha aí, tá ótimo pra mim. -  José Carlos aquiesceu sorrindo. 
As luzes se apagaram. Os amigos pegaram os pratos ainda pela metade da comida que tinha esfriado com a discussão acalorada. Antes de saírem, pensavam na mulher com todas aquelas características ideais e viram, Rayane, a que lia gibis de turma da mônica enquanto sentava na privada de sua casa, tinha ainda na bochecha um rastro da gelatina de framboesa colada na pele, na última eleição alguns amigos a tinham ouvido dizer que não votara em ninguém, porque ficara com preguiça de lavar o cabelo e sair de casa… José Carlos e Renato, se entreolharam e sem dizer nem uma palavra, concordaram que depois de meses com qualquer mulher ideal, os olhos iriam os guiar a desejar a Rayane ou qualquer outra, por uma razão simples.
A gente sempre prefere o que não é nosso.

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