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Demônios que a garoa não leva #26

A vi pela primeira vez pela televisão. Estava ali, perto do mato e do barulho do riacho e você apareceu num daqueles programas de domingo. Nunca mais consegui te esquecer. Naquela época, namorava com Mariana, Mariana de Cambuquira. É engraçado porque Cambuquira era seu sobrenome e também de onde vinha. Tinha olhos cor de âmbar e a pele morena queimada do sol do interior. Seus cabelos eram encaracolados e castanhos, com as pontas amareladas. Era de poucas palavras e gostávamos de estarmos à sós, olhando as vacas do Seu João Ribeiro e imaginando o sonho por detrás das montanhas. Seu beijo era de água doce do riacho. Seu cheiro era a mescla do doce da acerola e do frescor do limão, das árvores no quintal de casa. Pela tarde gostávamos de passear pelas ruas de pedra e sentar no passeio da pensão da Dona Terezinha e tomar sorvete no coreto e ir à missa aos domingos. Teu silêncio era o “eu te amo” mais alto que já ouvi, quando olhava para as estrelas enfeitando o universo do seu olhar. Tudo era assim, tranquilo e feliz. Mas então apareceu ela, a Srta. Sampaoli, Antonella Sampaoli, e parti para encontrá-la sem o beijo de despedida de toda tarde que Mariana me dava antes de entrar para ajudar a mexer o doce de goiaba ou descascar espigas de milho.
Sampaoli era totalmente diferente de tudo que eu tinha visto até então. Ela parecia saber de tudo e eu me senti meio bobo quando fiquei frente a frente pela primeira vez. Era bem maior e elétrica do que tinha imaginado. Gostei quando ouvi ela falar, falar e falar sobre tudo que acontecia ali. Tinha a pele branca, o olhar nublado e a boca vermelha com um cigarro de filtro amarelo, sempre insinuando que ia cair ao concreto a qualquer momento. A primeira vez que toquei sua boca, o gosto do fumo era diferente do cigarro de palha do qual eu já havia sentido, a língua corria muito mais depressa do que no interior, tal como suas pernas que por vezes desencarrilhava do ritmo naquele samba do Adoniran, que tanto ouvimos no vinil de um boteco na Paulista. Sampaoli nunca dorme. Eu não consigo acompanhá-la e acabo cochilando em algum ponto de ônibus. Quando acordo ela já está me puxando para alguma padoca e me apresenta depois suas amigas, a Angélica, a Augusta, a Consolação… De vez em quando insiste em me levar pra ver a Bella Vista e comer uma lasagna na cantina dos seus pais. Em dias de jogo, eles sempre perguntam como eu vestia preto e branco ao invés de torcer pro alviverde, enquanto empurravam “só mais um cannoli, perfavore”. Outras vezes gosto de olhar para os seus olhos verdes-ibirapuera, de olhar pelo espelho suas curvas e esquinas de poesia concreta, do salgado que molha sua boca da garoa de sua solidão. Ás vezes fica estressada como um fim de tarde de sexta no sinal fechado da Marginal, gosto de vê-la assim, ao longe como quando está olhando com atenção o passo de tantos que circulam pela Pinacoteca. Foi ela quem me apresentou a Folha, o Pacaembu, a casa do Caetano, os bares mais escondidos da Vila Madalena, os desencontros da Sé sob à Luz da estação. Alguma coisa acontece no meu coração, sempre quando te vejo Sampaoli. No subterrâneo apertado da linha 3 do metrô e te vendo do terraço de algum prédio entre os livros e os discos de um sebo qualquer, te amo! Mas, me perdoe, por em momentos de alucinação, ver passar pelos meus olhos como que despercebida a lembrança da saudade, saudade de Mariana de Cambuquira. Mais que isso, da Cambuquira de Mariana. E das águas de Caxambu, das praças de Baependi, dos parques de São Lourenço e da estrada escoltada por pés de café que me leva a Machado. Saudades é demais, das minas de Minas e das montanhas Gerais.

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