Pular para o conteúdo principal

Perdas e Danos #21


Outro dia olhava um caderninho de anotações e de lá saía ideias de todos para todos os gostos, umas escritas há semanas, outras eram de anos atrás. Algumas pareciam que não era minhas e talvez não fosse mesmo.
Tinha uma lista de nomes de mulheres, quase sempre fruto de amores inventados, terríveis. Eram personagens de diversos meios lugares do meio artístico que me fizera querer esconder a vontade de provar um pouco do veneno de cada uma. Era Irene Adler, que na infância me fizera pasmo como o Sherlock naquele escândalo da Boêmia. A mim, parecia sem sentido o detetive mais inteligente do mundo ficar perdido por uma mulher, ou sua interpretação não acredita que a peça que ela prega nele seja metáfora da líbido?
Depois veio Mia Wallace no nonsense de Pulp Fiction que me fez saltar os olhos para a sua franja postiça muito sensual. A ela adrenalina, eu fiquei com serotonina. Em seguida, vem Anna Barton com sua sedução de matar.
Nos livros tem aquelas que não tem chance, mas deixam você continuar o caminho, sem avisar que a rua é sem saída.  Vem a subjetividade de M. Irma sem nunca se deixar de se apaixonar pelo outro e me deixar com o narrador sem palavras. Nástienka, oh, Nástienka! Por que fizestes o que fizestes com o sonhador? Correr para os braços do outro que fez tão pouco caso de ti e o convidar para o seu casamento, sabendo que eu, e outros tantos leitores, ficariam sabendo de toda a desilusão, foi cruel. Mas aposto que você agiu de bom coração, eu sei.
Tem também aquelas que dão o amor que você sabe que é sua ruína, mas você insiste em rastejar pelos escombros, como no livro do Orwell, como era mesmo o nome da namorada de Wilson, que no livro diz que chama Winston?
Enfim, todas essas mulheres fatais, são aquelas que consegui evitar por todo esse tempo, avisando a todos que nunca me ouviam e cada leitura e atuação havia sempre o eterno retorno das mulheres e dos homens que não conseguiam sair de suas teias de aranha. Me sentia tranquilo quanto às mulheres iguais a essas, nada poderia me fazer perder o sentido. Como já alertou Rubem Braga, só que naquela época não sabia que mulher assim na vida de cada um não tem nomes extravagantes e nem sotaque estrangeiro e quase sempre acaba sendo Alice, Paula, ou Fernanda.
Porra, é Júlia!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...