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Envelhecendo na velha cidade #22

Fazer aniversário é olhar para o caminho do meio entre o que foi e o que pode não vir. É se dar conta da vida que seja por algumas horas de um dia por ano. Fazer o balanço se no dia de hoje, quando mais um ano se acrescenta na sua idade, você é quem achava que seria. 
Mas o que eu pensava que seria? Talvez eu pensasse que estaria sendo cientista e desvendando um método de filtro para escapamento de carros como na redação, que envergonhado, tive que ouvir minha professora ler na frente todos, naquela reunião de pais na quarta série. Ou quando dizia que seria advogado aos onze, presidente aos doze e engenheiro civil aos quatorze. Mas, o que me faz puxar os lábios hoje é lembrar que desses tantos outros, há o mesmo eu que queria aos nove em diante era roubar o emprego da dona Geisla na biblioteca municipal, quando dizia muitas vezes para ela que o que eu queria era trabalhar naquela biblioteca gigante com as estantes espalhadas por dois cômodos pequenos. "Quando eu crescer quero trabalhar aqui". Dizia meio ressabiado, com medo de que ela achasse que iria roubar o lugar dela. Ela ria com graça e dizia que um dia eu seria, um dia...
Confesso que toda vez que visito a biblioteca, hoje em dia, já em outro prédio e com muito mais livros e estantes, me vem à cabeça o que teria sido de mim se eu ficasse sendo bibliotecário da biblioteca municipal, talvez eu já teria um carro velho e fosse noivo da Letícia ou da Michelly para casar dali a um ou dois anos na Igreja da Matriz.
A Letícia me trocou e a Michelly casou com um outro no sábado passado, e o carro velho não poderia ser guiado por mim, pois a minha carteira de motorista não chegou  e sabe se lá quando chegará. 
Quando eu fiz dezoito, pensei que estaria livre para fazer o que quisesse. Legalmente, eu estava dono do meu próprio nariz e podia fazer o que quisesse. Hoje, quando saio de casa no meio do dia para um passeio de bicicleta, procuro a minha avó para um aviso que é quase um pedido de permissão para sair. As coisas mudam, mas nunca do jeito que a gente pensa.
Fazer aniversário é também lembrar que a morte está mais perto. Caro leitor, você pode achar estranho um jovem que acabou de chegar na casa dos vinte e poucos anos pensando no fim da vida. Te digo, a lembrança da morte é ruim por isso, por lembrar que já passou mais um ano e até quando estarei com os meus e com a cidade que renego e digo que não é mais minha, acho pacata demais e com o pensamento conservador  que é atrasado demais...
Esqueço por vezes que essa decrépita e católica não mais, nem menos do que outra cidade do interior de Minas é meu ponto de encontro comigo mesmo e meus anos passados. Aqui posso ser sempre o Gabriel ou o "vovô", como ta maioria ainda me chama, que gostava de contar piadinhas na escola e jogar bola depois da aula. 
Se o passado é tão bom convém arrepender das escolhas e torcer os tornozelos de volta para o passado?
Não, o presente está nesse momento ou num passado recente que é a forma mais adequada de designar o momento. Tenho outros amigos, moro em outra cidade, estou numa universidade e tomei a coragem para deixar os cabelos igual ao do Humberto, apesar de ter o mesmo de cobra e de altura. Ainda assim, os medos são outros e eu também. 
Amanhã ou depois irão surgir outros desejos e sonhos que talvez não se converta em realidade, mas é assim mesmo. Sonho é antes a força que te leva para o caminho do que o destino em si. Se eu sonhar em ser astronauta e no futuro eu estiver num chalé olhando pro céu e o brilho da lua, será que não serei realizado? Quem vai me dizer que não cumpri o objetivo que me é próprio?
Deixa eu pensar no que serei aos 30, 40, 50 anos se vou ser um professor morando em São Paulo ou escritor recluso nas montanhas da Patagônia e reviver histórias que poderiam ter sido mas nunca foram do passado que passou.
Hoje, estou na mesa da cozinha da casa de meus avós, meu vô tá na cabeceira, não há tantas pessoas mas gosto muito de todos aqui. Já estou com vontade de comer um pedaço da pizza, mas minha avó insiste em fazer a oração do Pai-nosso. Há risadinhas e tapinhas nas costas depois de um "Parabéns". Estou assim e estou feliz de estar. 

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