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Diante da liberdade #19

Em uma manhã, quando F. acordou de sonhos perturbados, encontrou-se transformando em um asqueroso inseto. Sua casca continuava a mesma de antes no espelho. Por dentro, sentia-se cada vez mais agitado e propenso a se afogar nas sujeiras da rua. Se afastou das músicas e livros e seus amigos já não reconhecia. Sua boca rejeitava o gosto da comida que lhe serviam, com o cheiro que provocava náusea.
Falante eloquente, agora não se ouvia palavra, só grunhidos escapavam por dentre os pequenos buracos dos dentes carcomidos. Os olhos já não carregavam a suavidade de outrora e alucinado, corria em todas as direções sem nunca alcançar nenhuma. Seus ossos ficavam a cada dia maiores e pontiagudos, ameaçadores para a aranha que preferia fugir para as frestas do forro a encará-lo. No dia 1, teve outros pesadelos como no primeiro dia. Abriu os olhos pelo sons de sua boca, mas não era  um grunhido, era um grito de horror claro e seco. 
Na mesma noite, por volta das dez, fortes murros na porta o fizeram-no acordar de sobressalto. Com dificuldade arrastou-se em direção a porta e depois de algumas tentativas, conseguiu girar a maçaneta com os dentes. 
Foi jogado para trás com o golpe , que trouxe para dentro do pequeno quarto dois homens vestidos de preto. Um homem baixo e com a cabeça branca, tirou uma folha milimetricamente dobrada em quatro partes do bolso interno do paletó e pôs-se a ler: "O Excelentíssimo senhor chefe da nação com apoio incondicional da população de bem, vem por meio deste inferir que tem o direito de eliminar qualquer indivíduo considerado nocivo a sociedade, sem ser necessário a realização de julgamentos públicos". 
Antes que F. pudesse dar conta de algo além da cabeça que ainda latejava, o segundo homem acertou-o na nuca com seu coturno lustroso, pisoteando-o até deixá-lo em pedaços como uma casca de ovo quebrada. Antes de saírem, o velho bateu continência e agradeceu F. pela compreensão. Naquela hora passava a reprise do discurso de posse daquele que fora eleito, entre fogos de artifício que zuniam no céu celebrando o progresso e discursos cercados de todos os lados por gritos de ordem. 

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