Pular para o conteúdo principal

Curta #18

Quase uma da manhã. Acaba a bateria do computador e fica para outro dia o curtametragem que eu assistia. Tiro de dentro do esconderijo na mochila a caixinha amarela, o dromedário me olha de esguelho, como quem diz: "Este produto causa câncer, pare de fumar!"  Volto os olhos para minha mão e ironizo: "Não aceito conselhos de um dromedário que se acha um camelo". Sigo adiante com o plano.
Vou a cozinha e risco o isqueiro, a faísca sai tímida e nunca se transforma em chama. Volto para o quarto para elaborar um Plano B. Novamente na cozinha, perto do fogão prestes a fazer fogo, minha avó sai do quarto e eu bebo um copo d'água, depois de já ter bebido uma garrafa aquela noite.  Na volta, ela me encara e não diz palavra. Penso nas palavras insinuadas pelo dromedário, mas já estou segurando um camelo entre os dedos médios. Acendo o fogão e depressa coloco o cigarro no fogo, num passo só já estou no meu quarto, com o coração acompanhando a velocidade dos pés e os olhos torcendo para que a porta de nenhum quarto se abra.
Fechado no meu, percebo que não há mais fogo no papel. Penso em desistir, mas meus passos nus já estão pisando no piso branco.  Acendo outra vez a chama do fogão e o cigarro, mas agora dou uma longa tragada para garantir que o fogo não irá se apagar. 
Com a fumaça lutando para fugir pela garganta, cuspo a para rua. Ali, no beiral da janela, fico observando o fim da rua sem saída. O cigarro queima mais na mão do que nos lábios. Jogo a prova do ato rente ao passeio de casa e sopro mais algumas fumaças brancas nessa noite fria de inverno. Deixo a janela aberta por um tempo para que o cheiro se confunda com o barulhos dos ventos que vem de fora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...