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Cenas e sinais #16

O barulho do helicóptero me fez saltar os olhos. Olhei para o teto e vi a sombra do ventilador girando preguiçosa. Ao lado, estiquei o braço para tocar a coxa de Samara. A mão encontrou apenas a claridade da manhã nascente que passava por entre as venezianas e riscava tiras de luz no cobertor enrugado. 
Um motor me tirou do silêncio e descobri onde ela estava no cair das águas do chuveiro. Do outro lado, o rádio-relógio em cima do criado-mudo piscando em vermelho, 6:37. Outro dia atrasado. Com o braço esticado e a metade do tronco pendendo da cama para o chão, pesco o cinzeiro com o isqueiro. Dentro do vidro, meio cigarro amassado e um montão de cinza. Acendo-o e dou a primeira tragada do dia. Duas tossidas e da garganta subiu um cheiro de morte.
Descalço, vou a pia beber água. Não reparo que Samara tinha voltado para a cama. Está lá, com as coxas brancas ainda à mostra mas não totalmente, seu joelho estava encoberto com um couro preto que escondia até seus pés. Seus cabelos lisos e louros, maravilhosamente louros, desciam até abaixo dos ombros, encobrindo por um momento o decote nos seios. 
Antes de bater a porta atrás de si, ainda reclamou com os olhos castanhos do meu beijo amargo e riscou com a ponta da unha meu lábio inferior. Esse era seu modo de dizer que vinha na próxima semana, se eu ligasse depois das três ela concordava em esquentar minha cama fria até o nascer do sol. 
No ônibus, olho para o lado e vejo tantos em suas idas e vindas com todos seus sonhos. Já não os olho com a desdém de outrora. Já não tenho os mesmos de antes, daquele momento que cheguei na selva de pedras, disposto a fazer algo mais pelo mundo. Vez ou outra vou a qualquer bar beber uísque caubói, sozinho, sem a arrogância que se deixou fugir para os bancos da universidade, enquanto eu seguia tropeçando nos passeios e paralelepípedos da vida real. 
O cigarro e o álcool me fazem companhia na espera de Samara. Sempre às sextas. O ponto de descer chegou e o cobrador sem bigode me olha com cara de pressa. Agora, tenho que dar aula de Revolução Francesa e inspirar exemplo "de ser alguém na vida" para garotos de onze anos.

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