Deve
ser pecado pro 9º círculo do inferno de Dante, torcedor dizer que têm dois
times. É impossível alguém não torcer os lábios pra quem diz uma coisa dessas.
Ainda mais duas equipes do mesmo país! Sempre vão olhá-lo como se você não
entendesse o espírito da coisa. Um lunático, um ignorante, só pode ser um
pervertido! Mas tenho que confessar, meu coração também bate por outras cores. Não,
não é que não ame o meu time do coração. Não, eu não quero trocar entende?
Duvido que nunca tenha passado por uma situação
dessas. Ah, nunca soube que trair seu clube de coração é crime inafiançável,
nem o diabo tolera. Que eu procurasse a bíblia ou a constituição, certamente
estaria dentre as cláusulas especiais. Como deixei acontecer? Não sei,
aconteceu sabe, carinho antigo. A culpa foi do meu padrasto que sabendo que eu
já havia selado um compromisso com o alvinegro paulista, me trouxe uma camisa do
tricolor carioca, a qual eu vesti em algumas ocasiões, pela minha pouca idade e
para não desapontá-lo de todo. Por muito tempo, o verde, branco e grená ficou
adormecido, mas agora, não foi minha culpa. Meu time não jogou no meio da
semana, então voltei no tempo torci por algumas horas para o time, que sofreu
um amargo revés no fim da partida. Não tenho culpa se o drama me atrai. Nem que
vire rotina cair nos braços de outro clube, nas noites de ausência do meu.
Domingo, no horário nobre do futebol vestirei o manto alvinegro sem me
preocupar com a dor de outros times e vou até fingir que não vi, quando num
momento de desinteresse do jogo, zapeando pela TV acabe vendo um gol mal
anulado a favor do tricolor e sentir aborrecimento. Talvez seja errado flertar
com a esposa e a amante que disputam um mesmo objetivo. E quando se
enfrentarem? Para qual lado estarei? Tal qual um marido sensato, não vou dar
chance para dúvidas, gritarei Eu nunca vou te abandonar para o timão, mesmo que
vez ou outra, escape de minha boca incentivos ao Nense.
Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava. Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar. Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar. Mas quero nadar. Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua. Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.
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