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Maldito seja Freud #12

Pedro olhou no braço mais uma vez. O ponteiro há pouco dera origem ao minuto dezessete da hora seis. 6:17. O céu começara a escurecer no vitror da pequena sala onde só mais uma mesinha de bambu, algumas cadeiras com estofamento azul bebê e um quadro que parecia feito de guaxa, lhe fazia companhia.
Ricardo, ainda tinha que fazer uma última consulta, "num pé lá, outro cá", como disse a Pedro antes de dar uma piscadela pro amigo e fechar a porta atrás  de e si e da senhora de uns 50 anos com cabelos negros como a noite. "Te espero aqui", foi o que Pedro conseguiu dizer antes que a fechadura batesse e caísse esparramado na poltrona azul olhando para o quadro. 
Ali, depois de cansar de contar os segundos no relógio, resolveu pegar uma daquelas revistas espalhadas pela mesinha. Escolheu uma pelo olho gigante cor de âmbar que estampava a capa e começou a folheá-la. Parou numa manchete "Você conhece seu próprio sonho"? Não, ele não conhecia e começou a passar o olhar nas primeiras letras: "O sonho carrega desejos reprimidos". Apertou os olhos para ler as letras miúdas, quando a fechadura girou e seu amigo acompanhou a mulher que seguiu até as escadas. Pedro enrolou a revista e apontou para o amigo que tocou nos seus ombros e consentiu com a cabeça, já com os passos procurando a porta da rua. 
No carro, as garrafas de cerveja no banco de trás sacolejavam e tilintavam acompanhando a bateria de  "Proibida pra mim". Pedro puxou assunto do dia de Ricardo, que respondeu que tinha sido cansativo mas que agora iriam ter aquele Happy Hour entre os amigos. Pedro concordou com o sorriso e agradeceu pela carona, porque naquele horário era foda achar um táxi. "Pois, é" o amigo disse virando na primeira à esquerda bem na hora em que um caminho de mudanças aparecia de um garagem que Ricardo jurava ter surgido naquele instante. 
O carro fez que ia mas não foi com a freada e a revista caiu entre o freio de mão e o câmbio. Com a mobilidade reduzida pelo cinto, Pedro esticou os dedos e alcançou o mesmo olhar penetrante de outrora. Ricardo com um sorriso de canto da boca, provocou o amigo: "Tá se interessando por Freud agora, Pedroca?" O outro com a revista enrolada novamente entre as mãos, respondeu num "Ah, ouvi falar que ele estuda, estudou quer dizer, sobre os sonhos. Vi nessa revista, uma frase que dizia que sonhos são baseados em desejos reprimidos, achei diferente e resolvi levar pra casa". O outro o encarou e acelerou quando o sinal ainda estava no amarelo, "Isso mesmo cara, para Freud, o sonho vem do que o consciente entende como errado socialmente e não consegue fazer no dia-a-dia, aí então a imaginação serve como vasão para esses desejos". Pedro parou a respiração, como uma criança ao ser pega pegando docinhos antes de partir o bolo da festa. Ricardo percebeu. "Não quero  nem saber o que anda pensando, meu camarada" e soltou um gargalhada em seguida. Só naquela semana, Pedro sonhara uma vez com a mulher do Maurício e duas com a do próprio Ricardo. 
No churrasco, com uma long neck na sua frente e as cartas na mesa, Pedro não sentia o gosto da cerveja e acabara de foldar uma mão om trinca de 4. Levantou dali e disse que tinha que ir ao banheiro. Foi a cozinha atrás de Sophia. Nada. Voltou para a varanda e andou perto da piscina. Nada. Entrou na cozinha e perguntou a Joana, mulher do Ricardo, se havia visto sua esposa. Ela disse que ela poderia estar no quarto. Pedro seguiu e antes de subir as escadas do quarto, viu Sophia e Jonas na sala, ele segurando um copo de uísque, ela rindo de alguma piada que ninguém mais escutara. Entretido, o rapaz nem viu quando Pedro chegou e o empurrou de costas a parede verde, Jonas se assustou mais segurou o amigo, com cara de interrogação. Em cinco minutos, todos haviam notado a confusão e a música tinha parado. Em dez, Ricardo e Joana, os últimos, iam embora oferecendo qualquer ajuda que precisassem. Sophia com o rosto combinando com o vestido vermelho, agradeceu-os com um sorriso amarelo, fechando o portão com as costas e escorregando até o gramado com a maquiagem borrada. 
Pedro voltou a varanda, onde ficara as cartas, copos e cicatrizes, com a garrafa de uísque na mão ficando cada vez mais transparente a cada instante que perambulava para lá e para cá, até que encontrou a revista caída atrás do banco entre a  pia e churrasqueira. Pegou-a e antes que o olho cada vez mais castanho lhe petrificasse o ateou junto com o resto da revista para as brasas. Com a garrafa pelo fim, bebeu os últimos goles e caiu estirado no granito em frente a porta da cozinha. Seus olhos se fecharam num átimo e naquele dia não sonhou nada.

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