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Desilusões graduadas ou Nem rima, Nem solução #09

Infância feliz. De dia era entre os amigos na rua jogando bola. À noite ficava entre os livros da coleção Vagalume. Nunca soube quando comecei a gostar das letras, para mim sempre foi apenas mais um passatempo. Na vida de criança a gente precisa de vários. Adorava a escola do ensino fundamental, a única que estudei dos 6 aos 14. Vi a escola com três salas, passar de 10 nos nove anos que fiquei lá, rindo, conversando, brigando, tendo as primeiras namoradas que nunca foram... No ritmo normal, mas que dá uma saudade quando você fica um pouco mais velho e volta sua vista para o passado.
No ensino médio, outro ritmo. Aos 15, longe de casa, há 200 quilômetros do abraço de sua vó e sem nenhum vizinho por perto. A vontade de voltar era enorme, mas eu lembrava que estava numa escola boa que iria abrir as portas da percepção do futuro confortável e de todos que ficaram na minha cidade, com saudade nos olhos, mas orgulhosos por eu me estar "se tornando alguém na vida". Eu acreditei nisso e fiquei. Ainda acredito ter sido o melhor para mim. Conheci muita gente, aprendi, errei, abaixei a cabeça e a ergui muitas vezes, chorei de saudade incontáveis vezes olhando para o grande campo de plantação de café ao lado do alojamento. Continuei. Apesar da saudade e da dificuldade muito maior nos estudos, com professores que pareciam que eu já estava matriculado na faculdade, mas que nos deu muito mais autonomia e exigia de nós o melhor de nós mesmos. Era rígido, mas necessário. Meu romance com a área de humanas foi arrebatador, mesmo tendo brilhantes professores nas outras áreas. Perto do fim do 2º ano, já começava o zum-zum da faculdade que certamente chegaria muito baixo nos meus ouvidos se eu não estivesse ali. No ano seguinte, com o namoro aberto com a área de humanas, resolvi escolher enfim, a pretendente. Jornalismo e História foram os cursos. Ouvi meus colegas, namorada, família, desconhecidos que me davam carona na beira da rodovia... Mas, sabia que aquela decisão era minha. Estava entre Jornalismo, que combinava dois prazeres que importavam muito para mim, leitura e escrita e o curso que chegou mais tarde, ali naquela escola do ensino médio, espelhado nas pessoas que ali iam se fazendo cada vez mais referência para mim e me dando motivação para acreditar única mudança possível, a educação através da História. Quando fiz a prova do ENEM naquele fim de semana de 2015, já tinha feito minha decisão. Eu seguiria e me tornaria um educador, na utopia cafona de dar ao máximo de pessoas que eu conseguisse aquela base educacional que eu tive o privilégio de receber.
Em 2016, chegava em Alfenas então pela primeira vez. Início do curso, extasiado por estar na universidade era assíduo em todas as aulas, fazia as atividades semanas antes da data de entrega, perambulava por entre os corredores daquela ilha de conhecimento na hora do intervalo que nunca consegui deixar de chamar de recreio. Ano de greve e apesar de eu não me envolver diretamente, gostava daquilo e da luta social que direta ou indiretamente, imaginava estar participando. O primeiro semestre de 2017, foi sem dúvida o auge. Cara, como eu gostava de estar ali, participando de todos aqueles debates, autores e pesquisando, a historiografia era fascinante.
Minha hipermetropia me fez óculos de ver tudo aquilo de tão perto que eu não conseguia ver de fato. Caiu meus óculos e o que vi foi o ritmo fabril de produção acadêmica, a ABNT muito acima da AUTOnomia, aulas ruins que eu não queria admitir, afinal, como poderiam ser? Eu estava graduando em uma Universidade Federal, com professores doutores e salas bem espaçadas, os alunos com livros embaixo do braço e cada aula com mais de três horas, nada poderia dar errado. Será que eu tô ficando louco? Foi o que pensei. 
"A educação muda pessoas e pessoas mudam o mundo". (FREIRE, p.alguma) Então, vamos lá! Nas provas e trabalhos, sempre precisávamos escrever mais do que no ensino médio, mas eu não me importava, escrever era um prazer, lembra? Às vezes, é difícil não esquecer disso. Não era problema, para mim, escrever 4,5,10 páginas, mas nunca entendi por que precisamos escrever 10 se conseguimos falar a mesma coisa com 5. O problema é a gente ser treinado para nunca escrever do nosso jeito e todos aqueles textos  que fazemos aos montes para conseguir a aprovação, sim, porque é pra isso que a gente continua no curso, nunca é nosso e não passam de recortar e colar as melhores ideias de intelectuais renomados, ganha o 10 quem fizer a melhor colagem. Pra quê temos que escrever que nem juristas? Já não basta um grupo que detém um determinado conhecimento privar todos os outros de saber dele? Entendi que nosso vocabulário tem o mesmo intuito do processo kafkaniano, ou seja, restringir o acesso e induzir aos que estão de fora nunca ousar se integrar a academia. Faculdade pública? Gratuita, no máximo, porque o público que mora na rua de cima nunca tem acesso as discussões e aulas que estão ocorrendo no portão e se quiser estudar por conta própria, não venha pedir livro aqui não, porque você sabe que é só para alunos e você nunca será um de nós! Como é bom falar entre a gente, no grupo de pesquisa específico é demais receber elogios daquele seu artigo publicado na revista... Você lembra o nome? Não importa, o que vale é o Lattes ficando cada vez maior.  Professor, professor... Eu não entendi aquela parte ali... "Não entendeu? Como assim? Você não entende porque deve estar lendo, olhando pro lado, porque minha aula é muito boa, olha aqui meu diploma de doutorado na USP ó! Vamos continuar com a aula. Quando tiverem na escola, vocês fazem isso e aquilo, tá? Porque aluno tem que cativar, tem que fazer diferente, senão não ganha atenção, não. Eu dou esse livro aqui desde que eu entrei aqui, porque ESSE é o melhor livro sobre o assunto, não tem jeito de ser outro, SÓ POR ISSO! 
O Método de Educação Libertadora de Paulo Freire (antes que alguém me acuse de plágio), privilegiava acima das letras, o posicionamento ativo do adulto no seu próprio contexto social e político e não como a gente vê aos montes, onde intelectuais precisam ditar regras "à grande massa alienada", tem que ser agregador, junto com eles, nunca por eles. Preferimos discutir questões dos males do capitalismo, em salas com ar-condicionados e poltronas confortáveis, sobre a influência de palavras escritas há muitos anos supostamente de um velho de barba branca. Pura teologia. Teologia que nunca liberta e  sempre nos aprisiona no castelo de areia da academia, onde a ponte para o mundo real está quebrada. Provavelmente por covardia vou me formar, boas notas, mãe chorando na formatura, quem não quer? Mas, torço para que encontre a luz do fim do túnel que me faça desdizer tudo isso e ver ao longe a motivação necessária para ser um bom educador, na árdua e de grande responsabilidade posição de profissional da educação.

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