Pular para o conteúdo principal

Saturday night #06

Sempre fui das terças-feiras. Não sei muito bem o motivo, talvez seja porque são vários ou realmente nenhum. Mas lembro-me que quando frequentava ainda o ensino fundamental, na única escola que frequentei em minha cidade, gostava das terças simplesmente porque quase todos os anos coincidia como o "dia da aula de educação física", ou seja, dia de no início da aula já conversar entre meninos e meninas, quem iria jogar e com quem.  Nas minhas turmas, pelo que eu me lembre, as garotas sempre gostavam de jogar, o que deixava um espaço maior para o futebol menos agressivo e mais charmoso. Claro, o charme não era regra. Muito menos a pacificidade.

 Mas era sempre bom escapar da sala, depois de ficar alguns minutos impacientes com a demora ou a conversa do professor ao celular antes da aula que o fazia dar gargalhadas, enquanto desesperados queríamos logo nos libertamos das carteiras e da lei do silêncio,  extravasando a poucos metros dali, na pequena quadra poliesportiva. Bons tempos. Talvez também goste, pois voltando no calendário, há algum tempo, percebi que eu havia nascido numa terça-feira. No momento, não precisei de maiores convencimentos para eleger às terças-feiras como os melhores dias da semana. Os outros são normais, muitas vezes sem-graça, alguns salvam-se por algumas horinhas, como as noites de quarta e as tardes de domingo de futebol na TV. O que não gosto mesmo, é um dia que talvez seja o melhor  para os outros, nunca para mim: o sábado que eu frequento toda semana. Sempre foi um dia muito chato, desde a infância. Sem escola, não encontraria com os amigos. Na TV em casa, pé-de-galinha, que não possuía mais que 7 canais, sendo que dois eram indiferenciáveis entre si, pela má qualidade do vídeo, não passava nada além de receitas que-ninguém-faz e programas evangélicos. Não havia computadores, nem smartphones. Sequer pensaria que havia internet sem fio.

Era um dia que não terminava. Nem mesmo à noite era legal. Ainda novo saía, algumas vezes, tendo que voltar claro bem antes da meia-noite. Destino? Girar em volta da praça, como todos os outros e torcer para coincidir com algum conhecido girando no sentido contrário. Depois de alguns anos, internet e celulares já faziam parte do meu cotidiano. O sábado entendiante como sempre, só parei mesmo de sair à noite. Não gostava muito de andar pra um lugar ou trocar algumas palavras com as poucas pessoas que convivia na escola, mas que andavam de um jeito bem mais arrogante ali, com seus copos descartáveis de eles-mesmos-não-sabiam-o-quê com algumas pedras de gelo, que os faziam mudar o copo de mão a todo instante. Ali não queriam conversar com os caretas como eu, que por muito tempo preferi deixar meu corpo livre das toxinas alcoólicas.

 Hoje, já um pouco mais velho, longe da praça e daquelas pessoas, mas apreciando a solidão de ficar em casa. Às vezes me sinto parte das coisas e sufocado pelos móveis e pela poeira que anda por baixo deles. Mas sábado, é ruim. Ou é mesmo algo pessoal que eu tenho com o dia. Não sei, só sei que não gosto. Enfadado do sétimo dia da semana, escrevi para passar para domingo e cá estou. Não é a melhor das hipóteses, mas já me sinto melhor, ás quatro da tarde começa o futebol. Quer dizer, agora às cinco... Maldito horário de verão! 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...