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¡Tchau Radar! #04

"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembranças essas memórias póstumas".  Tal qual o velho Brás Cubas, preciso escrever sobre minhas memórias póstumas. Não, ainda não estou totalmente morto. Pelo menos não enterrado a sete palmos do chão em um cemitério gélido e úmido, com cheiros de flores já também mortas. Mas de uns tempos para cá, me sinto meio alheio a vida e os outros a mim, o que me dá a sensação de já não estar mais vivo.
 Tenho que contar minha suspeita da razão de me sentir assim. Saí do facebook. Nos primeiros dias, ainda não me dava conta e quando me conectava na internet, instintivamente via correr os dedos pelo teclado e aparecer a página azul de login do website. Da mesma forma automática fechava a páginas as pressas, orgulhoso por dedicar meu estimado tempo em "algo útil". Ouvia diversos álbuns de bandas de que eu já gostava e também destinava um tempo a conhecer novos sons, também conseguia ler diversos jornais e consegui aumentar ainda mais minha carga literária. Me concentrei em aprender o inglês, por isso, lia posts e assistia séries e filmes em inglês, além de fazer cotidianamente atividades de um curso online da mesma língua.

Estava me sentindo o máximo, quando pacientemente poderia escorrer a água da chaleira no filtro de café, sem morrer de ansiedade dos posts dos últimos 30 segundos de que eu estava perdendo.
 Mas, como dizem por aí, nem tudo são flores. Certo dia, estava tranquilo na cantina da universidade saboreando um café com livro, quando passou por mim minha orientadora e ao me notar, espantou-se do porquê eu não havia ido na reunião pela manhã. Merda, esqueci de avisá-la de que eu havia saído do face e por isso, expliquei para ela e a mesma com um pouco de receio me perguntou se havia acontecido alguma coisa e se estava tudo bem comigo. Naquele momento senti a vingança silenciosa de uma rede social. Se eu saia por aí falando que poderia viver sem um site e isso não me faria nenhum mal, ele depois de um amigável convite para retornar quando eu quisesse, tratou logo de me fazer sumir no mapa. Nunca mais aparecera marcado nas fotos, apenas um corpo sem identificação. Na lista de amigos, ao procurar só apareceria meu nome, sem foto ou possibilidade de conhecer meus posts ou perfil.

Tal qual um morto, com um nome escrito em uma lápide. Além disso, todos que me encontravam depois de um tempo, me estranhara o cabelo grande e minhas novas visões de mundo depois de um tempo de conversa. "Cadê o topete?" ou "Você fez um post contra isso, como agora defende tal causa?" Depois de um suspiro meio entediado, dizia que havia saíra da rede social e por isso estranhavam meu visual dos anos 80 e minhas respostas cruzadas. Como num ciclo vicioso, o espanto era o mesmo, sempre alguém achando que havia algo de estranho com um jovem que decidiu dar um tempo de compartilhar suas alegrias e decepções pelo meio virtual. Mas assim ainda estou. Perdendo contato com algumas pessoas, estranhando quando chego em salas de aula vazias enquanto todos já sabem que não iam ter aula, mas sim estou vivo, só não nesse mundo de aparências. A cada uma pessoa que decide dar um tempo, provavelmente entram umas 100 ou 1000, mas tanto faz, saindo fora do ar, consigo deitar e ficar pensando em coisas aleatórias mais vezes, sem ter que ver tantas bobagens fúteis. É Facebook, você ainda não conseguir me levar de volta para toda aquela overdose virtual, para o paradoxo do mundo moderno de sentir-se só num mundo conectado. Tô fora!

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