Pular para o conteúdo principal

o homem que queria sair da caverna #01

Um dia, um homem descobriu que havia vida fora dali onde morava, trabalhava e convivia com muitas outras pessoas. Nem ele mesmo sabe se foi pelos livros que leu, ou pelas histórias que viveu, mas um dia, parou e pensou: "Deve haver vida fora da caverna". Não fora o primeiro a ter esse pensamento, nem seria o último, mas depois de um tempo passou  a se angustiar com a confortável vida que vivia ali na caverna. Quanto mais investigava, mais entendia a podridão do mundo à sua volta e cada vez mais caminhava para a saída da caverna. Com isso, passou a sentir avesso as conversas, experiências e sensações que provocavam a vida na caverna, que sempre lhe pareceu muito boa. 

 Entendeu que o mundo ideal que lhe pintavam quando era criança, só existia na tela que ficava na sala de sua caverna, quase sempre ilusória e também num pequeno grupo de cavernas, diferente das outras. Quando saiu da sua caverna e percebeu que havia outras, maiores e menores, descobriu também que havia outros homens e mulheres que viviam por fora de algumas cavernas e isso provocou-lhe uma sensação de angústia, mas as pessoas quem lhe eram próximas e a tela, desconversavam a questão. Para eles, as pessoas que não viviam nas cavernas só viviam por ali porque queriam, ou melhor, porque não gostavam de trabalhar e queriam ganhar cavernas e privilégios a custa dos trabalhadores.

Decidiu então, sair da caverna.  Seus pais tentaram persuadi-lo, mas parecia que o homem estava convicto em deixar toda a aquela regalia e conhecer a realidade. Saiu, andou por alguns quilômetros e sentou próximo a um grupo que parecia morar fora das cavernas. Já anoitecera e pela caminhada à tarde e a discussão há poucos com os pais, lembrou-se que não comera. O grupo tinha pouco, mas compartilhou o alimento com o novo integrante. Após um tempo, foi deitar na pedra ao lado de uma grande caverna, as costas doíam, mas pensou que aquilo não era nada, comparado a liberdade de viver fora da caverna. Acordou, com as costas ainda doendo e com um brilho ardente nos olhos, sonhara no momento, aquilo  deveria ser a liberdade que tanto lera e refletira sobre o viver fora da caverna. Não, eram algumas pessoas vestidas com roupas idênticas que berravam num megafone e colocavam fortes lanternas nos rostos do grupo, enquanto passavam pessoas com roupas extravagantes por cima de suas cabeças. Na confusão, conseguiu correr e depois de vagar por um tempo, viu que novamente estava de volta a caverna onde morava com os pais. Entrou, sua mãe correu para abraça-lo trazendo consigo  uma forma com muitos biscoitinhos e um copo grande de suco de uva. O homem devorou tudo num instante e depois sentiu novamente o bem-estar da agua morna caindo em sua cabeça e do cheiro de lavanda de seu corpo.

À noite, de volta a uma colchão espaçoso e cobertores confortáveis, novamente se revoltou. E na manhã seguinte, novamente voltou as ruas. Mas na outra noite, voltou novamente para a antiga caverna. Depois de um tempo, seus pais se acostumaram e nem se importavam com o homem que sempre saia da caverna mas após um tempo não conseguia desprender-se da sua cama e num circulo vicioso, voltava a dizer e contradizer-se, mas todas noites quando deitava na cama, se angustiava consigo mesmo, dia após dia...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

8101

A tarde estava com um sol baixo, como que silenciado parcialmente pelo barulho das nuvens que anunciavam as chuvas derradeiras da estação. O som ao redor, por toda a parte. Conversas, vozes, pastilhas de freio, buzinas, aviões. Do que é feito a conclusão? Assim existem sempre um saber que está aí, mas parece que sempre um passo adiante. Corra! O motorista abriu a porta e deixou que o sacolejar guiasse os primeiros passos se pendulando por entre o corredor estreito. Estava ali. Não era uma vaga na janela, mas pelo menos poderia observar de esguelha as montanhas de construções de prédios residenciais, santuários católicos e aglomerados de cômodos pequenos. A senhora, resignada, olhava para a janela e não percebeu que uma borboleta entrou pela estação e girou, girou até repousar sobre a manga da blusa fina que ela carregava sobre os braços. E a viagem seguiu, atravessou e seguiu.  Mas a senhora olhou para o braço e começou a dar alguns tapas na borboleta que só sabia pular, como que s...

Nadar, verbo intransitivo

 Não sei se sei nadar. Já brinquei que nadava em banheiras que se pareciam piscinas. Depois fui me arriscando mais ou fingia que nadava.  Sempre quis saber nadar. Enfrentei redemoinhos de vento bem maiores do que achei que meu pulmão suportaria. Tentei algumas vezes, mas parecia que ainda não queria despregar os pés para mais fundo. Eu não sabia se sabia nadar.  Então fui passando, um dia achei que saber nadar era só nadar, que não era tão difícil, nem perigoso. Enganei-me sem saber se era medo de morrer ou de não saber nadar.   Mas quero nadar.  Hoje ainda quero nadar. A água filtrada me chama, perco. Também continuo perdendo para a correnteza. O frio ainda marca a espinha e a epiderme dolorida de outrora. Náufragos não acreditam em águas mansas. Mas o mar não ensina, insinua.  Nadar à favor da maré baixa antes do preamar.  

O ser e a estupidez

 Não consigo me reconhecer. Cumpro a cartilha às avessas de tudo aquilo que forjei ser meu domínio, minha índole. Lembro que até pouco tempo, lamentava profundamente ter de me relacionar com conversas banais e carinhos avulsos por algumas noites, para no outro dia, amargar uma ressaca de não resistir em relações da carne. Como a música, a literatura, o cinema, a teoria crítica não me bastava?  Meus relacionamentos mais duradouros sempre operaram na lógica de flerte e conquista, para desaguar em contato sexual apenas uma ou duas vezes por mês. Nesse meio tempo, mantinha um contato frio, era meu jeito, nunca consegui ser romântico e a humilhação pública do amor me nauseava. Não havia maiores sentimentos que passassem a figura do cômodo, de não ser um completo párea, de agradar alguém no mundo e produzir um parco desejo nesse outrem. Sempre coloquei minhas aspirações primeiro, sendo elas altas, nobres e lúcidas ou inúteis, apenas para comprovar que só eu me governo e nenhuma infl...